sábado, 30 de novembro de 2013

A concha

Abri portas e janelas, deixei o ar renovar casa. Tirei o pó dos móveis, troquei tudo de lugar. Preparei o café, esperei pelo combinado. Passaram minutos e passou da hora... 

Um tanto do café ficou velho, o outro tanto ficou frio...seria ruim. Fechei tudo, cobri novamente os quadros e quando ele bateu, não abri porque minha casa estava feia de novo, seria necessário um novo dia.

domingo, 17 de novembro de 2013

Ensaio sobre o fim

Quem nunca pensou em cortar os pulsos quando a morte tão sedutora mostra suas unhas vermelhas e seu cheiro adocicado de jasmim? Lembro de tê-la visto em alguma das esquinas que passamos na noite passada, um pouco depois de ter perdido a consciência. Ela mostrava-se como num clichê em meio a escuridão enquanto o carro ultrapassava em alta velocidade caminhos que jamais pensaria que pudesse passar.
Nessa noite, ao lado da pessoa que poderia ser minha alma gêmea, segurei firme no encosto do banco da frente e senti o medo, o mais puro e simples medo. Foi nesse momento que a percebi ainda mais perto, sabia que em algum lugar da cidade fria ela me esperava com os braços abertos e a promessa eterna. Eu estava qualquer coisa entre me sentir maravilhada e apavorada com tal convite.
O que faz alguém querer morrer ou viver? Será que é a soma dos sorrisos? Por que eu estava sorrindo se estávamos perdidos? Lembro qualquer coisa sobre um embalo suave e continuo e ainda pensava sobre a vida. Naquele momento só gostaria de estar em minha casa, deitada na cama sendo abraçada por ele, relembrando momentos, tragando sorrisos um do outro, espantando ela para longe, cegando com nossa luz seus olhos famintos.
Não sei dizer de onde veio aquela luz que momentos antes eu imaginava, mas veio, e seguida de um impacto tão forte que me senti sendo jogada para fora da janela. Ouvi freadas, e o vil metal se contorcendo – talvez por medo também, nenhum grito audível e eu estava no chão. Não sentia dor, nem frio e nem mais aquele medo, só conseguia pensar que o toque dela tinha um peso forte demais e talvez eu precisasse de um abraço, ainda que fosse dela.
O ar estava parado e quase não chegava a meus pulmões, o silêncio como um cobertor me acalentava. Não sei ao certo quantas eternidades passei ali, quantos sonhos e lembranças vieram  me visitar. Quando acordei estava num hospital, depois de uma noite em coma, na qual me disseram eu havia morrido e nascido novamente. Eu acreditei, pois ainda pela manhã, podia sentir seu cheiro.

sábado, 16 de novembro de 2013

Eles...

Volta e meia sou invadida por “eus-monstros”. Eles são feios, maus, rosnam, têm dentes grandes e afiados, se alimentam de mim e nunca estão satisfeitos. 

Ás vezes eu exalo um certo mau hálito vindo deles.

Quando posso tento os acalmar, assim como quem se aproxima lentamente de um cão raivoso. De vez em quando funciona, se acalmam, outras vezes me devoram um pouco do coração, fígado e estômago.

Eles crescem e se multiplicam de forma desordenada, tenho a impressão que um dia eles tomarão conta de todo o espaço ocupado pelas minhas vísceras. É bem possível! Talvez aí, quando eu estiver completamente vazia e já não tiverem do que se alimentar, finalmente me deixem em paz – eu e minha carcaça - ou quem sabe procurem abrigo em outro alguém, ou ainda, simplesmente se aquietem e sejam meus companheiros de viagem até o fim. Não sei!

Quem sabe um dia eu comece a comê-los! Também não sei